No início da República, as grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo estavam sob graves problemas urbanos, tais como: epidemias, redes insuficientes de água e esgoto, super povoados e mau planejamento das áreas habitáveis.
Em meio a esse cenário, na capital, o presidente da república Rodrigues Alves convocou o sanitarista Oswaldo Cruz e o prefeito Pereira Passos para execução de um grande projeto sanitarista, tendo como principal objetivo a modernização da cidade e a extinção das epidemias. Prédios, casas e casebres foram derrubados para dar lugar a grandes obras, atos que ficaram conhecidos como "bota-abaixo" e que mais tarde viriam a ocasionar o surgimento das favelas, pois os moradores se estabeleciam irregularmente nos morros uma vez que foram expulsos de suas casas. Foram realizadas campanhas de extermínio aos agentes transmissores da febre amarela, varíola e peste bubônica e implantação da vacinação obrigatória. Em pouco tempo, essas epidemias foram erradicadas da capital. No entanto, foi visível a forma autoritária com que foram impostas esses medidas.
Exército Mata-mosquitos
Com o intuito de combater a febre amarela, foi posta em pratica uma nova política sanitária.. O exército de mata-mosquitos adentravam as casas para exterminar os insetos desrespeitando a privacidade das pessoas. Tal medida também foi tomada para combater a peste bubônica, onde os ratos da cidade foram exterminados. Houve relatos de que se ofereciam recompensas para quem entregasse ratos mortos aos agentes sanitaristas.
A Vacina
A vacinação obrigatória, fator que deu o nome ao conflito, não foi a única causa da revolta. Ela de fato foi a foi a medida imposta que mais obteve reação popular hostil. As mulheres precisava expor suas partes íntimas para a aplicação da vacina e as pessoas se perguntavam como se podia curar uma doença introduzindoa no corpo. Entretanto, quanto as causas do conflito, não podemos atribuí-la a apenas um fator, mas sim a um conjunto de insatisfações de uma população que vivia na capital e estava sob um grande caos social onde não participavam ativamente das decisões políticas de uma idealizada "república". Dessa forma, a campanha de vacinação obrigatória foi o epicentro onde se estourou as revoltas e foram colocadas em jogo uma série de descontentamentos.
"Parece-nos que os motivos da dimensão de profundidade da Revolta da Vacina está exatamente no aspecto que a caracterizava - justificação moral. Os movimentos anteriores foram marcadamente motivados por razões econômicas, isto é, a causa imediata era sempre uma queixa material, a saber, aumento de preços, novos impostos e taxas, serviços públicos de má qualidade, baixos salários."
"A Revolta da Vacina, em contraste fundamentou-se primariamente em razões ideológicas e morais[...]Mas em 1904 tal justificação estava no centro do protesto. É a nossa tese que foi este guarda-chuva moral que tornou possível a mobilização popular de 1904 nas proporções em que ela se deu."
José Murilo de Carvalho
Em novembro de 1904, a revolta se inicia. As ruas do Rio de Janeiro foram palco para as batalhas de uma guerra civil. A escola militar de Praia Vermelha, inspirados pelo sentimento florianista e o descontentamento de se ter um presidente civil, alia-se aos revoltosos.
Por fim, as forças do governo conseguiram conter a revolta. Não se sabe o número de mortos. Muitos foram deportados e as medidas sanitárias continuaram em vigor. Dois anos depois as epidemias haviam sido irradicadas da capital.
Curiosidades
O atual Morro do Realengo, famoso por ser uma das favelas mais violenteas do Rio de Janeiro, foi onde ocorreram os mais sangrentos combates da Revolta da Vacina. Dessa forma, a partir de uma análise superficial, é possível ver os reflexos de uma revolta após um século de sua ocorrência. A exclusão social e o descaso do Estado com a população, são questões que começaram muito distante no passado mas que continuam sendo muito atuais.
Alberto Tanaka
Fontes:
CARVALHO, José Murilo de - O Rio de Janeiro e a República que não foi

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